segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

terra


Não uso a expressão “vou à terra” , porque não me considero de uma só terra. Sou beirã, sou ilhéu e neste momento pertenço à cidade. Tenho sorte de ter vivido e de vivenciar diferentes sítios, maneiras de estar, hábitos e gentes. Gosto dessa sensação, faz-me sentir uma pessoa mais completa.

Quando vou a São Miguel tenho uma sensação que não tenho em mais lado nenhum, respiro de maneira diferente, de forma segura e sinto-me verdadeiramente em casa. O mar, o vento, as pessoas, o verde, o basalto, o tempo húmido, a casa dos pais e o cheiro da ilha. A ilha cheira a maresia, a sopa do espírito santo, a criptoméria e a polvo assado. Sabe sempre bem voltar às ilhas de bruma.

Mas nasci na beira baixa e as férias de verão eram passadas na casa dos avós com os primos, tios e amigos. Ainda hoje recordo o cheiro do eucalipto e faço uma viagem no tempo, para as noites quentes de verão a ouvir as histórias que os meus avós, tios-avós e bisavós contavam sobre a vida e sobre as tradições. O que faziam, o que comiam, o que vestiam e o que tinham. Adorava as expressões, as palavras, os gestos, a cumplicidade com que terminavam cada história. Guardo muitas recordações desses tempos. Adorava as manhãs na casa dos meus avós, quando me levantava e ouvia a minha avó na cozinha. Preparava-me as torradas, enquanto adiantava o almoço, o meu avô chegava da horta, sentava-se e ficava a conversar comigo, com a minha irmã, com o meu irmão e com os meus primos. As conversas à lareira, os passeios com o meu avô pela chã e o dia em que a minha avó amassava o pão de madrugada e a meio da manhã já nos deliciávamos com pão quente acabadinho de sair do forno. Lembrar esses momentos, é lembrar um conforto, um bem-estar único e uma felicidade plena.  

Nesta época do ano, as tradições estão sempre presentes, apesar de serem em sítios completamente diferentes a tradição mantém-se, as filhós foram feitas em Lisboa, mas da mesma forma como a minha avó fazia todos os anos, no Palvarinho. A tradição é isso mesmo, é lembrar e manter pequenos gestos, hábitos e expressões vivos dentro de nós e continuar a passar esses costumes para as novas gerações e preservar o que é nosso. 

Gosto de saber que tenho vários refúgios, para poder sair do rebuliço da cidade e respirar. 
Faz-me bem sair da cidade e assentar os pés na terra. 


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